A Menina das Tarolas
A história nasceu de umas férias passadas em casa da minha mãe. Numa dessas tardes, entre conversas e momentos partilhados, a minha mãe começou a contar-me histórias da sua infância. Histórias de um tempo que eu não vivi, de uma realidade muito diferente daquela em que cresci, mas que, de alguma forma, também faz parte de mim.
À medida que a ouvia, fui percebendo que aquelas memórias eram muito mais do que histórias de infância. Eram pedaços da nossa família. Eram as raízes de onde viemos, de um tempo e de uma forma de viver que as gerações seguintes já não conheceram.
Senti, por isso, que era importante guardar aquelas palavras.
Não queria que aquelas memórias se perdessem com o passar dos anos, nem que a nossa família esquecesse as raízes às quais pertence, mas que já não vive. Queria preservar os pequenos acontecimentos, as dificuldades, os sonhos, os objetos, os costumes e, sobretudo, a menina que existiu antes da mulher que hoje conhecemos.
Foi assim que comecei a registar aquilo que a minha mãe me contava.
E, pouco a pouco, Mariazinha começou a ganhar vida nas páginas de um livro.
A história trouxe consigo uma realidade marcada pela simplicidade e pelas dificuldades, mas também pela criatividade, pelo trabalho, pela entreajuda familiar e pela capacidade de encontrar felicidade nas pequenas coisas. As tão desejadas tarolas, as sandálias, os brinquedos construídos pelos irmãos, os trabalhos feitos pelas pequenas mãos e tantas outras memórias tornaram-se testemunhos de uma infância que merecia ser preservada.
Houve, porém, uma passagem da história que me tocou de uma forma particularmente profunda, o episódio vivido pela Mariazinha em contexto escolar.
Trabalho diretamente e de forma constante com crianças e, por isso, senti que aquela parte da história poderia ter um significado que ultrapassasse a experiência individual da minha mãe. Era importante recordar como era a escola há algumas décadas e perceber o quanto mudou a relação entre professores e alunos.
A violência que a minha mãe viveu na escola pertence a uma realidade que hoje nos custa compreender. A distância entre essa experiência e aquilo que procuramos construir atualmente na relação com as crianças é enorme. Contar esta parte da sua infância não pretende apenas recordar uma situação dolorosa, mas também permitir-nos olhar para trás e reconhecer o caminho que a escola e a sociedade percorreram.
No livro, esse episódio ganha um lugar importante porque faz parte da verdade da vida da Mariazinha. Depois de uma dificuldade com as reduções, a menina foi chamada ao quadro e acabou por sofrer uma violência física severa por parte da professora.
Mas A Menina das Tarolas não nasceu apenas da necessidade de preservar memórias.
Nasceu também do encontro entre uma mãe e uma filha.
O processo de construção deste livro aproximou-nos ainda mais. Ao ouvir a minha mãe, ao fazer perguntas, ao tentar compreender aquilo que ela tinha vivido e ao transformar as suas memórias em palavras e imagens, fomos revisitando juntas uma parte da sua vida.
Este foi o livro mais emotivo que alguma vez escrevi. Nele estiveram presentes, de uma forma muito intensa, a sensibilidade da minha mãe e a minha própria sensibilidade. Cada parte da história escrita, cada memória recuperada e cada desenho foram construídos com essa dupla presença.
Preservar uma memória é muito mais do que guardar aquilo que aconteceu. É garantir que aqueles que vieram antes de nós continuam a ter um lugar na nossa história.
