Âmago

Era época de pandemia e eu encontrava-me no Parque de Campismo dos Biscoitos. Não podíamos ir para lado nenhum, não podíamos viver o mundo como habitualmente. Mas, dentro de todas essas limitações, senti-me privilegiada porque podia caminhar pelo parque, observar a natureza e encontrar, naquele espaço, uma liberdade que o mundo exterior não permitia.

Foi numa dessas tardes, debaixo de uma árvore, entre o som dos pássaros e o rumor do mar, que comecei a olhar verdadeiramente para aquela árvore. Os troncos, os galhos, as folhas, as copas. E, enquanto a observava, regressaram-me memórias de infância.

Quando era pequena, gostava de trepar às árvores. Em frente à casa da minha mãe havia uma árvore. Na sua copa existia uma pequena coroa feita de latão, que alguém, um dia, ali escondera. Talvez tenha sido essa lembrança que abriu a porta para o Âmago.

A ideia de subir às árvores, de brincar nas suas copas e de imaginar que entre os galhos poderiam existir coisas escondidas e segredos que só algumas pessoas conseguiriam descobrir começou a misturar-se com aquele momento vivido no Parque de Campismo dos Biscoitos. A árvore que estava diante de mim deixou de ser apenas uma árvore. Transformou-se num lugar possível. Um lugar secreto, mágico e infinito.

E assim nasceu a ideia de uma árvore que guarda, no interior da sua copa, um mundo inteiro. Um lugar onde tudo aquilo que imaginamos pode ganhar vida.

Foi assim que nasceu esta história. De uma árvore real, de uma memória de infância e de um momento presente.

Numa primeira fase, e devido às circunstâncias da pandemia, Âmago foi editado em formato e-book. Mais tarde, quando esse período de resguardo social terminou e pudemos voltar a aproximar-nos uns dos outros, a história ganhou uma nova forma e passou também a existir em livro físico.

Há histórias que não são propriamente inventadas. São histórias que ficam escondidas dentro de nós, à espera do momento certo para serem encontradas.