Quem me dera ser
Esta história nasceu numa das fases que considero mais desafiantes da minha vida e, ao mesmo tempo, numa das mais necessárias.
Foi um período marcado por uma condicionante de saúde que me obrigou a parar e me impediu de continuar a viver a vida da forma como até então a conhecia. Naquele momento, aquilo que parecia ser uma limitação tornou-se uma das maiores oportunidades de transformação que a vida me poderia ter oferecido.
Se aquela situação não tivesse surgido, talvez eu tivesse continuado no mesmo caminho, sem perceber que precisava de mudar. Talvez permanecesse estagnada na minha evolução pessoal e espiritual, sem coragem de procurar outros caminhos. Foi precisamente a partir daquele momento de paragem e de desafio que comecei a tomar novos rumos mais conscientes e mais próximos daquele que sinto ser o meu propósito de vida.
Mas, enquanto tudo isso acontecia, havia uma pergunta que começou a ganhar espaço dentro de mim:
E se eu pudesse ser qualquer coisa?
Foi então que comecei a imaginar que a minha alma poderia habitar qualquer forma existente na Natureza. Poderia ser uma árvore, o vento, o mar, uma flor, uma nuvem, um pássaro… Poderia habitar qualquer corpo e, ainda assim, a minha consciência continuaria a ser eu.
Naquele período, havia apenas uma coisa que eu desejava profundamente, ter um corpo saudável. Todo o resto era secundário. E, enquanto procurava compreender aquela experiência, comecei a imaginar como seria viver através de outras formas, sentir o mundo a partir delas e descobrir a liberdade de simplesmente ser.
Foi dessa reflexão que surgiu o Quem me dera ser.
Inicialmente, fui eu quem escreveu e desenhou a história. Coloquei no papel aquilo que estava a viver e, sobretudo, aquilo que estava a descobrir dentro de mim. Cada “quem me dera” era, de certa forma, uma possibilidade de liberdade, uma maneira de imaginar que podemos ser muito mais do que aquilo que o nosso corpo, as nossas circunstâncias ou as nossas limitações momentâneas nos fazem acreditar.
Mais tarde, senti que o livro precisava de uma outra perspetiva. Queria que as imagens não fossem apenas aquelas que eu própria tinha imaginado naquele momento, mas que outra pessoa pudesse entrar na história, senti-la e interpretá-la através do seu próprio olhar.
Foi então que convidei uma amiga para ilustrar o livro. O resultado tornou-se, para mim, ainda mais especial, porque a história deixou de pertencer apenas à experiência que lhe deu origem e passou a poder ser descoberta por cada leitor à sua maneira.
Hoje, quando olho para o Quem me dera ser, já não vejo apenas a história que nasceu de um período difícil. Vejo também o caminho que esse período abriu.
A vida ensinou-me que, por vezes, aquilo que chega até nós como uma grande condicionante pode ser precisamente aquilo que nos empurra para a liberdade. Há momentos em que somos obrigados a parar para podermos finalmente perceber para onde queremos ir.
E talvez seja essa a pergunta que permanece no final desta história:
Se pudesses ser qualquer coisa no mundo, sem que nada te limitasse, o que escolherias ser?
Hoje, a minha alma e o meu corpo estão mais fortes do que nunca. Sinto-me mais preparada para viver os inúmeros dias que ainda tenho pela frente e, sobretudo, para desfrutar com plenitude tudo aquilo que a vida me oferece.
Porque, afinal, talvez não precisemos de ser outra coisa.
Precisamos apenas de ter liberdade para descobrir quem realmente somos.
